Faz tempo que ando deprimida por conta das mudanças em Niterói que, ao meu ver, foram pra pior. Os cariocas de plantão já vão pensar e dizer que o que Niterói tem de melhor é a vista pro Rio, mas acho que hoje nem isso!
Nasci aqui e não tenho do que reclamar da infância e adolescência vividas nesta cidade, mas nunca pude imaginar que, quando chegasse à fase adulta, sentiria tamanha tristeza e revolta por viver num lugar que simplesmente acabou.
Lembro da minha cidade como sendo um porto seguro, com identidade própria, praias belas e limpas, trilhas que nos levavam a vistas maravilhosas como as do “Parque da Cidade”, “Santo Inácio”, “Costão” e “Mourão” em Itacoatiara e a programas culturais que, óbvio, por ser uma cidade de pequeno porte, não tinha nem como ser comparados à vida cultural do Rio de Janeiro, mas tinham sua qualidade no entretenimento.
O barato daqui era justamente possuir traços de cidade do interior em que todos se conheciam, todos se encontravam, mas que se quiséssemos estávamos, em vinte minutos, ao lado dos grandes centros comercial, urbano e cultural do Rio de Janeiro.
Claro que tal realidade não poderia ficar estagnada. As cidades crescem, a população aumenta, as inovações são inevitáveis; mas por quê não são feitas de forma planejada?
A quantidade de moradores aqui aumentou absurdamente! É assustador o número de casas derrubadas e prédios e mais prédios sendo construídos. Eu costumo dizer que hoje moro num canteiro de obras. Mal acaba um edifício, já começa o bate estaca de outro.
No entanto, as ruas continuam do mesmo tamanho da época em que meus pais eram crianças. O acesso à “Ponte Rio-Niterói” continua sendo de uma via apenas: um funil. Os hospitais estão aos frangalhos e não dão nem de longe conta do povo daqui. Os cinemas sumiram! Se há três salas de projeção num único shopping, é muito. E o número é o mesmo para as salas de teatro. As livrarias também conto nos dedos. É triste, não é?
O trânsito é assunto à parte. Percursos que antes eu fazia somente em dez ou quinze minutos de ônibus, hoje levo entre 40 minutos e uma hora. Isso quando não cai uma gota do céu e a cidade pára.
Conforme o velho ditado diz, “os incomodados que se mudem”; o jeito é seguir a risca e achar um lugar que eu me sinta mais em casa.
março 11, 2010 às 1:17 am |
Cristina,
Às vezes, penso em sair do Rio de Janeiro, como você está procurando se mudar de Niterói. Meus motivos são bem parecidos com os seus. É possível que um dia eu realmente faça isso. Mas considero importante refletirmos bem antes de tomarmos concretamente uma decisão desse tipo.
Penso, por exemplo, em ir pra cidades como Petrópolis e Valença, pra citar dois locais que conheço perto do Rio e que me parecem ainda reunir alguns aspectos que valorizo, como ter uma certa tranqüilidade, ao mesmo tempo em que mantêm uma estrutura razoável e não estão isoladas demais. Só que nunca morei nesses lugares e sei que também enfrentam seus problemas, até porque conheço algumas pessoas dessas duas cidades.
Tendo isso em vista, prefiro, por enquanto, lutar pra que o Rio de Janeiro melhore. Quando passeio por lugares como o Alto da Boa Vista, tenho certeza de que a cidade, apesar de tudo, é maravilhosa. O Teatro Municipal é um poema da arquitetura. Se fosse fazer uma lista nessa linha, precisaria de várias estrofes.
Niterói também tem lugares encantadores. Pra não me estender nem repetir o que você já citou, digo que a Fortaleza de Santa Cruz, em Jurujuba, e o pôr-do-sol visto da UFF no Gragoatá são exemplos disso. Na fortaleza, vi que as masmorras não existem apenas na história do Conde de Monte-Cristo. Ali, em Jurujuba, conheci uma masmorra onde só entra escuridão. O pôr-do-sol no Gragoatá iluminou saudosas conversas e bons momentos em que a paz me habitou.
Se morasse em Niterói, me colocaria mais diretamente à sua disposição pra te ajudar numa luta pra que a cidade que você conheceu na sua infância retorne, ainda que atualizada. Te ajudaria mais diretamente a que esse filme passasse não somente em tradicionais cinemas nos bairros, cujas telas conhecessem discretas a história das lágrimas e sorrisos e dos beijos e sorvetes de cada freqüentador, mas também que essa felicidade ficasse pra sempre em cartaz em cada esquina. De qualquer modo, mesmo não sendo seu vizinho, dei uma contribuição indireta, por meio do Sindicato dos Petroleiros, pra que o Cinema Icaraí seja preservado e se torne um local de socialização da sétima arte.
E por que considero que vale a pena lutarmos? Porque os grandes problemas que dificultam nossa vida no Rio de Janeiro e em Niterói não são exclusivos de nossas cidades. Pode acontecer de encontrarmos os mesmos problemas, ainda que eventualmente em menor escala, em outras localidades. Pode acontecer, nesse sentido, de vagarmos sempre em busca de um Eldorado. Seria uma forma de conhecermos bem nosso estado, pelo menos. Mas talvez não resolvesse a situação. Além disso, acredito que é possível mudarmos o cenário de nossas queridas cidades, por mais difícil que seja. Afinal, seus problemas foram criados por pessoas, especialmente dentro de uma estrutura em que a exploração é uma lei pro lucro colocado como um dos principais “valores”. Assim, as pessoas também podem resolver esses problemas.
Eles são vários. Mas identifico alguns que me parecem estar na raiz dos demais: a desigualdade social, a especulação imobiliária, a “organização” das cidades voltada pro carros e não pras pessoas e a orientação da economia pelo salve-se quem puder, mesmo matando, de forma metafórica ou direta. Daí derivam, por exemplo, a violência, o descaso com a saúde e com a educação, a poluição, o desrespeito ao patrimônio histórico e o comportamento de quem vê a cidade como propriedade privada ou como terra de ninguém.
Na campanha O petróleo tem que ser nosso, defendo que as cidades sejam reorganizadas, a fim de que sejam voltadas pras pessoas, em vez de pros carros. Defendo uma priorização de transportes coletivos e de caminhos seguros pra ciclistas e pedestres. No artigo Morte nas estradas, publicado no jornal O Dia em 17 de janeiro deste ano, Frei Betto resume bem o funcionamento do carro colocado no pedestal: “Em 2008, os acidentes de trânsito mataram, no Brasil, 36666 pessoas – o equivalente a 100 mortes por dia! [Mas o] Brasil se gaba de vender 3 milhões de carros por ano (num país de grave deficiência de transportes coletivos)”.
Como pedestre, sinto na pele como grande parte dos motoristas esquecem que também são pedestres pelo menos em alguns momentos. Rosnam pra quem está a pé, avançam mesmo, não estão muito preocupados se vão te atropelar. Com o esse comportamento, atropelam o direito a uma cidade melhor (e fogem sem prestar socorro). Como pedestre, não poluo. Mas sou obrigado a respirar a poluição de automóveis e mais automóveis. Tenho feito e registrado junto à Fetranspor reclamações sobre ônibus que parecem chaminés sobre quatro rodas. Principalmente na Avenida Presidente Vargas. Anoto placa, número, linha, horário e local exato e envio as mensagens, por meio de um sistema de atendimento via bate-papo pela internet. Vou ampliar esse tipo de cobrança cidadã. Esses pequenos gestos são importantes e não doem. Mas a mudança geral só virá com uma luta muito mais ampla, que passa, na minha avaliação, pelo que defendo na campanha O petróleo tem que ser nosso.
Pelo menos por enquanto, prefiro me manter nessa luta do que aceitar a lógica de “os incomodados que se mudem”. A atitude de pessoas que freqüentam a Bolha Lilás, como a Mônica, que luta por uma Santa Teresa melhor, me anima. Pelo Sindicato dos Petroleiros, já ajudamos algumas ações dessa luta, que você pode conhecer um pouco no saite da Associação de Moradores e Amigos de Santa Teresa (http://amast.org.br). Também pelo sindicato, estamos dando apoio à luta por um transporte público de qualidade e sem preços abusivos das passagens de ônibus em Petrópolis. Pessoalmente, já dei uma contribuição pro Valença em questão, publicação de um movimento de mesmo nome que atua na Princesinha da Serra e em cujo trabalho você pode dar uma olhada em http://blogdovq.blogspot.com.
Espero ter te animado um pouco a tentar ficar em Niterói e a se engajar pra que sua cidade volte a ser um lugar agradável. Como você mesma contou neste blog, nem Ouro Preto está uma jóia tão preservada. Mas, se realmente decidir partir, desejo que encontre um bom lugar.
Abraços.
Antony
março 11, 2010 às 6:40 pm |
Crissss,
Mais um texto interessante em que vc mostra uma das problemáticas do mundo atual…a superlotação de absolutamente tudo…barulho, carros, pessoas, ruas mal planejadas….enfim..o caos….
mas se não fóssemos pra reclamar e questionar as coisas que graça teria…apesar de tb me sentir sufocada na antes bem mais calma Niteroi e pensar, como vc, em picar a mula, ainda nao tomei coragem pra tal..pelo menos nao de forma definitiva…ainda me sinto segura pelas andanças pelo meu bairro, a facilidade de ter acesso às coisas essenciais e lazer e por aí vai…
no meu caso, a vista para o Rio ainda serve de consolo..estar “distante” de um caos ainda maior me traz certa tranquilidade…qdo essa sensação deixar de existir completamente quem sabe nos mudamos juntas…:-)
bjkasss
março 13, 2010 às 7:43 pm |
Cris,
Muito bom o texto. Aliás, excelentes textos, amiga. Ok, sou suspeitíssima para falar… Além de amiga irmã desde pequena, pensamos muito parecido com relação a muitas coisas.
Beijos, querida.
março 22, 2010 às 12:48 am |
Oieeeeee !!
Morei em Nicty e agora estou no Rio … O caos só troca o CEP !!!
Semana passada levei 2 horas e meia para vir do Humaita para a Lagoa ,onde moro por causa de um acidente no Tunel Reboucas…
Acho que te animei a ficar ai mesmo onde mora ,ne nao???
HAHAHAHAHA
BJKAS Gisele
março 22, 2010 às 5:15 pm |
Fala, Cris!
Compartilho das suas “inquietações” sobre cidade. São muitas quetões mesmo… Sobre a especulação imobiliária, tem uns caras bem atuantes em Niterói fiscalizando os “acordos” do poder público municipal, planos diretores etc. A organização chama-se CCOB (Conselho Comunitário da Orla da Baía), e é formada em sua maioria por representantes de associações de moradores (daquelas que não são apenas um “prolongamento” da prefeitura). Cheguei a participar um tempo atrás duma campanha com eles contra a construção de prédios no Morro do Morcego, lá em Jurujuba. Surpreendentemente deu certo, e, pelo que sei, hoje a questão está em vias de se regulamentar uma área de preservação.
Obs.: demorei, mas consegui passar por aqui…
Abs,
Arthur
março 24, 2010 às 10:22 pm |
Oi, entrei no seu blog por acaso, procurando imagens no google ví uma foto de Ouro Preto, bateu saudades dos tempos anteriores e resolví dar uma olhadinha…dei de cara com seu texto sobre Niterói e parecia que era eu que tinha escrito, pois o sentimento foi o mesmo;
Realmente, se as cidades, assim como as sociedades, continuarem a crescer assim tão desordenadamente, o que mostra que os governantes estão lá só para enriquecer e nem aí para mais nada, vai ser difícil arrumar algum lugar com a qualidade de vida que tinha aqui em Niterói alguns (vários) anos atrás.
Bom, deixa eu ver a foto de Ouro Preto…
abraço e parabéns
Igor
março 29, 2010 às 5:37 pm |
O negócio é se mandar daqui! E em vez de sofre com o “crowde” alheio, “incrowdiar” a cidado do outro!hehe! Vou me embora pra Mauá! Por favor não me sigam!rssss