
As caixinhas de Natal.
O Natal se aproxima e sempre fico bastante reflexiva neste período. E angustiada também por achar a energia carregada com as pessoas frenéticas atrás de presentes de Natal. Tendo religião ou não, o espírito natalino traz a ideia de confraternização entre as pessoas, mas são poucos que estão realmente atentos a esta questão. A maioria está preocupada em comprar, comprar e comprar, sem se dar conta de que o valor dos presentes não é simplesmente material. Às vezes, uma bela mensagem é bem mais gratificante.
Lembro-me bastante de quem me ensinou a pensar assim: minha doce e amada vovó Jandyra. Saudades imensas da minha Bibi! Da nossa Bibi, porque os que a conheceram, com certeza, sentem tantas saudades dela quanto eu; e, conforme a própria dizia, muitas vezes, em tom de ameaça: “quando eu morrer vocês sentirão muito a minha falta”. E, quanto a mim, ela acertou na mosca.
Bibi partiu deste mundo no dia 30 de novembro de 2007, um dia antes do meu chá de panela. Um período confuso, de muitas mudanças na minha vida, desafios no trabalho, mudança de casa, preparativos de casamento; mas ela cumpriu o que sempre me prometera: que completaria 100 anos.
Minha avó se julgava uma pessoa sem graça, mas de sem graça ela não tinha absolutamente nada. Muito teimosa e metódica, dizia que conhecia o mundo através da leitura e só hoje percebo que possuía grande sabedoria. Cheia de qualidades e defeitos, eu ainda a amo de paixão e a imagino sempre na hora que vou dormir puxando meus pés com as mãos frias como costumava fazer ao me acordar pra ir à escola. Ela dizia: “quando eu passar desta pra melhor, voltarei para puxar o pé de vocês (meu e dos meus primos) e assim mostrar que ainda estou por aqui tomando conta de vocês”. Muitos acharão macabro; e nós mesmos, na época, falávamos: “Cruzes Vó!” No entanto, até hoje ela não puxou meu pé, mas sinto fortemente a presença dela ao meu lado.
São inesquecíveis os momentos vividos ao lado de vovó Jandyra. O cheiro da broa de milho no fim da tarde que comíamos com café, a torta de banana com canela, os doces em compota, as trouxinhas de alface (que ela inventava para nos forçar a comer verduras), a maçã raspadinha, a hora das novelas, o chá preto antes de dormir, a conversa com as plantas, o rádio ao pé do ouvido em que escutava A Hora do Brasil, as aulas de artesanato em que ela nos ensinava tapeçaria, a criação de cartões de natal, a decoração de sabonetes com figurinhas e esmalte, a coleção de selos, figurinhas e revistas, a estória do Jorginho (que minha mãe nunca deixou ela contar até o final, porque chegava um ponto tão triste da narrativa que a minha mãe, ainda bem pequena, começava a chorar de tristeza pela desgraceira que era a vida do Jorginho, impossibilitando a minha avó de terminar a estória, que, por sinal, tinha um final feliz, cheio de ensinamentos morais).
Bem, não é possível relatar 100 anos de vida em apenas uma página de blog, mas dá ao menos para expor minha saudade e homenagear a minha querida vózinha.
Hoje, percebo o imenso afeto que a minha avó tinha pelos seus filhos e netos e que a presença dela continua tão intensa em nossas vidas que, neste Natal, eu e minha mãe estamos enfeitando caixinhas para presentear familiares e amigos. Enquanto escolhemos os tecidos, cortamos cartolinas, discutimos quem vai fazer o que e como, lembramos que vovó Jandyra adorava este tipo de atividade. Além disso, recordamos também os vários provérbios populares que Janjan (ou Florzinha, como a minha irmã mais velha costumava chamá-la) dizia de acordo com a situação apresentada – e que, atualmente, a família usa e, claro, lembra dela.
Eis alguns provérbios que, com a ajuda da minha mãe e da minha prima Anninha, anotei para usar e nunca esquecer:
“Recordar é viver; é transformar num sorriso o que nos fez sofrer”.
“Este mundo é um penico sem fundo”.
“A oportunidade é careca”.
“Sua alma, sua palma”.
“O que é seu, nas suas mãos há de vir”.
“Quem come e guarda, come duas vezes”.
“Formiga, quando quer se perder, cria asa”.
“Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz”.
“Quem com os porcos se mistura, farelo come”.
“Diga-me com quem andas e te direi quem és”.
“Pela carruagem se vê quem vem dentro”.
“Tudo demais faz mal”.
“Seja tudo pelo amor de Deus”.
“Deus infinito poder está em mim, me guia e me protege”.
Além destes, minha prima lembrou de algumas frases bem típicas usadas por ela em algumas situações, por exemplo:
Sempre que vovó Jandyra estava perdendo numa discussão, terminava o debate num rompante dizendo: “Ah! Então não quero saber… Até logo, hein?!”.
Ou, quando ia contar algo sobre o passado dela, começava assim: “No tempo em que eu era gente…”
Quando discutíamos sobre religião, afirmava: “Eu não sou espírita, eu sou es-pi-ri-tu-a-lis-ta”.
E dizia sempre que era mais importante ser bonito por dentro do que por fora porque a juventude passa.
Termino este texto entre gargalhadas, lágrimas e muito feliz por constatar que tive a sorte de ter uma avó e tanto!
É, vovó Jandyra, de fato sinto muito a sua falta! “Recordar é viver…” e me contentar com as suas delicadas lembranças.
Desejo a todos, que acompanham a Bolha Lilás, um Natal repleto de harmonia, saúde e paz. Celebrem a vida, pois conforme dizia a minha avó: “Ninguém sabe o dia de amanhã”.